O vírus subversivo: notas contra o medo e o tédio

Da minha janela a vida parece suspensa enquanto a televisão bombardeia constantemente com o Covid 19. Como no 11 de Setembro americano, no tempo do Bush filho: um acontecimento a marcar o início do novo milénio. Tal como nessa altura, o discurso e as imagens repetem-se até à exaustação, sempre as mesmas, variações ad nauseum. A 26 de Outubro de 2001 o governo americano anuncia a Lei Patriótica. Desta vez não foi preciso tanto tempo para chegarmos ao Estado de Emergência Global. Não é o mesmo tipo de ameaça seguramente. E no entanto…

O surto começou na China (1,4 biliões de seres humanos), mais exactamente em Wuhan (distrito que se tornou num centro industrial tecnologicamente avançado já neste início do milénio, actualmente com mais de 11 milhões de habitantes), depois passou para a Itália, alastrou-se à Europa e a todo o Mundo. Uma externalidade da indústria turística e dos novos ricos asiáticos ou das oportunidades de negócio dos italianos por lá. Não o sabemos.

A OMS declara a 11 de Março o surto de Sars-Cov-2 uma pandemia global, numa altura em que a pademia parecia estar já estar a ser controlada na China. Até então estavam contabilizadas 118 mil infecções em 114 nações, 4.291 mortos. Em breve o mundo começa a parar, numa sintonia descoordenada com vozes desencontradas de políticos em todos os Estados. A luta contra um previsível extermínio de uma parte significativa da população, à escala mundial, tem como resposta a quarentena voluntária e um sentimento indivudual de impotência, incerteza e medo perante o futuro.

O discurso mediático insistente amplificou-se diariamente, dizendo-nos constantemente em directo o que se passa em Portugal. Como numa gigantesca catástrofe cuja imagem é invisível, pois só conhecemos imagens dos seus resultados: os mortos, os hospitais, as cidades desertas pelo mundo fora. E os governantes loucos que continuam a ignorar esta ameaça, que dizem que o mundo não pode parar. Recorda-nos coisas essenciais: o capital é circulação e alienação para ser acumulação. Receiam morrer da curar ou perder o controlo às regras do jogo.

O governo diz-nos que o país está em guerra, uma guerra abstracta de autoria desconhecida, pouco importa, e declara o Estado de Emergência. A democracia necessita destas excepções para o ser. Imaginem o que seria cada médico, enfermeiro ou trabalhador começar agora a comportar-se como um empresário, explorando os custos de oportunidade. Imaginem o que seria dos trabalhadores do serviço nacional de saúde se se lembrassem de começar com reivindicações nesta altura e indicassem aos doentes o caminho do sector privado. Nem pensar em reivindicações, muito menos em greves! As ideias que passam como imperativas são aquelas que os anarquistas gostam: solidariedade, apoio mútuo, compaixão, valores humanistas, responsabilidade individual e colectivas. Não faltam voluntários para arriscar a vida por desconhecidos, para serem úteis à comunidade e comportamentos responsáveis, de quarentena voluntariamente aceite. Mas temos isto com polícia e exército à mistura que aparecem na media em operações de charme a fazer aquilo que o sector privado faria melhor, de acordo com os defensores do Estado Mínimo. Parece que nunca gostámos tanto da polícia, das instituições e do governo como agora, dizem-nos os inquéritos convenientes realizados pelo ISCTE/ICS1. Atribuem a essas entidades superiores o que deveriam atribuir a si próprios pois não vemos nem a polícia nem o exército a escoltar médicos e enfermeiras para os hospitais nem medidas excepcionais para além das regras que ditam o bom senso.

Lembrando os governos de “união sagrada” do tempo da I Guerra Mundial, a oposição do regime declara tréguas transitórias, pois a situação de tão grave que é, só pode ser transitória2. Como medida, impõe-se a quarentena colectiva, uma medida que é aceite voluntariamente porque racionalmente é o melhor que há a fazer. Obedecemos porque ouvimos os médicos e ouvimos as pessoas que nos merecem confiança, nas mensagens passadas por smartphones. Não porque estamos em Estado de Emergência. Mas estamos.

Na verdade não sabemos o que será do Mundo, do mundo dos humanos, o devir das sociedades humanas com este e outros Covides que virão muito provavelmente no futuro próximo. O silêncio e a quietude repentina é surrealista. Vemos uma enfermidade expandir-se em tempo real, pelas estatísticas que mostram a ponta do iceberg. Esperamos em casa que a pandemia passe, que a Ciência encontre uma solução. Tudo o resto parece ter desaparecido: o problema do aquecimento global, dos efeitos das mudanças climáticas, a ameaça nuclear, as guerras “regionais”.

António Guterres apela à paz no mundo perante Conselho de Segurança da ONU no dia 5 de Janeiro, apelo renovado agora (23 de Março) invocado o Coronavírus. Um vírus formidável que “a pandemia põe em evidência a loucura da guerra”3. Conseguiu fazer o que dois séculos de movimentos pela paz na Europa não conseguiram. A Rússia decide parar com os seus exercícios militares junto à fronteira numa altura em que a Nato decide adiar os seus exercícios de musculação junto dos russos. Também a Nato monitoriza o vírus com preocupação4. Que poder formidável tem este vírus!

Trópico de Cancer

Foi lembrado que é um vírus que não respeita fronteiras, nem raças, nem classes. Como todos os outros que têm assolado o mundo, de resto. No primeiro ano do século, a cólera ataca na África sub-sahariana e continua a matar em todas as regiões e povos martirizados do mundo, o resultado duma geopolítica onde as grandes potências têm o seu quinhão de responsabilidade. Acompanha-o o sarampo. Em 2002 e nos anos dois anos seguintes, o SARS (Severe acute respiratory syndrome) ataca a China, Singapura, Taiwan e chegou ao Canadá e a África. Depois tivemos a febre do Dengue, o Ébola, a peste bubónica , a gripe das aves, o diabo. Mas tudo isso tudo junto, com a excepção desta última, não valeu o tempo de antena de uma partida de futebol. Estes surtos virais, querem-nos fazer crer, são inesperados, imprevisíveis.

Mas este vírus, se não é muito mais mortífero, pelo menos fugiu à cintura defensiva do nosso paralelo de segurança. Espalha-se rapidamente, mata os ricos e os poderesos indiscriminadamente, mina o “capital humano” das sociedades, a começar pelos seus médicos e enfermeiros que se encontram na linha da frente a tentar salvar vidas. É um vírus subversivo, nihilista, que de repente nos torna todos iguais e a todos submete. O senado gerontocrático norte-americano preocupa-se ou treme talvez perante o que se avizinha. Tomam-se medidas excepcionais nas assembleias governativas, os parlamentos. Não há assembleias eclesiásticas a pedir clemência a Deus, não há procissões nem marchas de mulhes nem outras manifestações de protesto.

O vírus suscitou uma espécie de greve geral mundial, em tempos diferentes, em que os governos decretam serviços mínimos para que a vida possa continuar. O vírus não precisa da insurreição. A vida parece suspensa, o capitalismo ameça colapso, os seus defensores desejam que seja um parêntices necessário antes do regresso à normalidade, como nas guerras. Outros especulam sobre o seu destino, sobre a forma como irá mudar, já que o vírus teima em não tomar formas inofensivas.

Os media têm de justificar a realidade para nos assegurar que não estamos perante uma guerra dos mundos ficcional, nem perante uma experiência militar dos estados global sobre a sociedade civil.

O vírus político

América Primeiro. O império revela a sua impotência para proteger-se a si e aos seus aliados. Donald Trump insistiu em chamar insistentemente ao Covid 19, “o vírus chinês”, nas acções que tinha de tomar para enfrentar os seus efeitos sobre a “nação americana”. Através do Twitter afirmou que se tratava de uma situação inesperada que está a fazer sangrar o mundo. Às ameaças à China soma-se a defesa perante os “democratas” americanos que o tratam como um incapaz. O vírus tinha sido denunciado anteriormente por ele como sendo um boato dos democratas, numa altura em que o número de infectados conhecidos nos EUA era ainda baixo. Mark Pompeo continuou deliberadamente a especular sobre o vírus de origem chinesa. A rede da FOX tratou de fazer passar a mensagem5. A resposta chinesa foi a de acusar os EUA de fabricarem o vírus num laboratório militar e de o colocarem em com objectivos militares, arriscando uma ruptura grave. As suas acusões sobre a responsabilidade militar norte-americana prestam-se a múltiplas especulações.

No Brasil, as teorias da conspiração sobre o virús como estratégia chinesa têm feito carreira nas redes sociais, na imprensa de direita, em canais públicos e em vídeos que circulam pela web. O objectivo da China seria provocar o colapso para tomar posição sobre as bolsas, comprando empresas a preço de saldo e ao mesmo tempo resolver problemas internos. Bolsonaro mantêm-se ainda irredutível nesse terreno do negacionismo surreal, acusando a media brasileira e os governadores dos estados de andarem a enganar o povo. Acusa-os de “exterminarem empregos”. Algumas seitas seguem o mesmo discurso enquanto outros oportunistas também especulam com a situação6.

Na Grã-Bretanha, Borris Jonhson foi igualmente lento na resposta às ameaças virais. A estratégia militar global dos ingleses anunciado há relativamente pouco tempo não contempla este tipo de ameças. A guerra biológica só importa se for intencional, se puder ser controlável.

Os restantes países europeus, por seu turno, não tiveram uma resposta conjunta à crise, tratando-a como uma questão subsidiária. Tal passaria por pensar colectivamente nas soluções para o problema e, mais uma vez, em respostas solidárias nas suas múltiplas dimensões entre os estados europeus e as suas organizações. Seria preciso uma Europa dos povos e não a Europa dos negócios que tem existido até agora.

A semi-forma de vida que é o vírus parece ter vindo ameaçar a ordem social levando os governantes a hesitar nas respostas a dar-lhe, enquanto o perigo não lhes bateu à porta. A segurança das nações tem sido a justificação para a existência dos exércitos permanentes e dos seus planos militares. O vírus aparece agora como um inimigo comum da humanidade sem que os impérios que competiam pelo armamento nuclear, digital e biotecnológico consigam agora lançar as bases para um entendimento internacional. A cooperação, quando surge, faz-se largamente na sociedade civil, entre organizações e indivíduos, que paga os custos da sua desobediência. A começar pelo médico chinês que denunciou, pela primeira vez, a situação numa altura em que o PCP se encontrava na fase negacionista. O vírus cria novas oportunidades de negócio e de uma nova geopolítica. A busca pela milagrosa vaciona tornou-se uma competição entre os grandes impérios (China, EUA, EU) pelo prestígio mas sobretudo, pelos lucros que podem ser obtidos através do sistema das patentes7. Cabe agora aos oligarcas através das suas organizações explorar os custos de oportunidade para este mal sobre os humanos.

Os Estados parecem impotentes para defender-nos de um inimigo que há muito era esperado8. As infecções zoonóticas têm muito que ver com a Sexta Extinção em curso, com a destruição de habitats naturais, com o aumento do extractivismo, enfim, com o mecanismo económico que gera o aquecimento global, dizem-nos os cientistas9.

No entanto, ficou demonstrado que os políticos não levaram com seriedade a ameça. Nos EUA, na GB como em toda a parte, a saúde pública não tem sido tratada como uma questão de segurança nacional. Entre as medidas que tem sido apontadas como preventivas, cabe à sociedade civil organizar-se para as levar a cabo, nomeadamente, a liberdade e transparência na informação veiculada às escalas local, nacional e mundial, a cooperação internacional através de organizações profissionais internacionais, formas eficientes de produção que garantam o acesso de todos a medicamentos, tratamentos e vacinas. Décadas de neoliberalismo e de guerra permanente redundaram na falta de confiança na informação que é prestada, nas instituições públicas, no poder político democrático e, por outro lado, na criação de indivíduos competitivos, hedonistas, que se pautam por comportamentos individualistas, xenofóbicos e racistas, incapazes de desenvolverem comportamentos solidários e autónomos, a não ser nas suas margens. Nos EUA e no Canadá, a resposta à ameaça viral foi a corrida às armas. As pessoas têm sido treinadas no seu quotidiano e mentalmente por Hollywood para se comportarem como bandidos quando o poder da força pública entrar em colapso. Pelo menos será isso o que receiam.

Vírus e mudança social

Há quem acredite que este surto pandêmico virá mudar valores, comportamentos, levando-nos para um mundo melhor, pensando na natureza e a viver melhor. Decrescimento finalmente! Afinal não foi a unanimidade dos dirigentes mundiais na Conferência de Paris promovida pelas Nações Unidas em 2016, nem a recente irreverência da menina nórdica que levou o planeta a diminuir as emissões de CO2, foi a ameaça da morte indiscriminada e a previsível dissolvência social. Disseminando-se a uma velocidade estonteante entre humanos em permanente circulação pelo planeta, sem existirem vacinações e com consequências fatais imprevisíveis nas estruturas de poder, impõe-se a intervenção da política. São os chefes de estado que falam às nações, quando deveríamos ouvir os virologistas, os médicos e outros cientistas.

Os vírus podem ser fatais, influenciar acontecimentos, mudar comportamentos mas não mudam as sociedades. A conquista das Américas foi acompanhada pela disseminação simultanea de novas doenças desconhecidas, nomeadamente a varíola, tifo, gripe, peste bubónica, tuberculose, cólera, sarampo, que as populações nativas não conseguiram responder, conduzindo ao extermínio de populações inteiras ou à redução acentuada da população. A expansão da população da Eurasia a partir do século XVII por todo o planeta teve um efeito devastador sobre populações consideradas “primitivas”. O surto devastador da gripe espanhola, que decorreu entre 1918 e 1920, matou cerca de 17 milhões de pessoas, poderá ter contribuído para o fim mais rápido da guerra mas não provocou as revoluções na Hungria e na Alemanha. O contágio veio Rússia e a direita depressa adoptou a expressão “o vírus bolchevique”. Em Portugal, a pandemia terá influído nos resultados frustrantes da greve geral de 18 de Novembro 1918 mas não explica, por exemplo, as orientações e os destinos do sindicalismo nos anos seguintes.

Os vírus e as bacterias, no entanto, provocaram mudanças nos comportamentos sociais quando se tomou consciência de como actuavam. Apesar da vacinação ser uma prática anterior, embora limitada, as descobertas realizadas na década de 1870 levaram os estados liberais a sair da sua postura axiomática de não intervieram na acção pública, de deixar fazer (laissez faire, laissez passez), para começar a impor limitações a acção privada, a intervir na prevenção da saúde pública através de infraestruturas e acções higienistas. As medidas sanitárias tomadas durante a peste bubónica, que surge em 1899 no Porto, ilustra essa acção higienista das autoridades, o novo papel do médico como autoridade pública, capaz de intervir no quotidiano e até licenciamento da construção particular das habitações urbanas. Mas não resolveu a má qualidade da habitação dos trabalhadores portugueses que tipicamente viviam nas anti-higiénicas «ilhas». O problema da qualidade das habitações da esmagadora maioria das pessoas manteve-se como um problema insolúvel do liberalismo, ao qual os fascismos procuram demagogicamente responder. A nacionalização ou estatização (na forma de “municipalização”) de serviços de abastecimento de água e de infraestruturas sanitárias foi assumida também por esses motivos. A vacinação preventiva passou a ser utilizada massivamente nas colónias, por vezes a título experimental, de forma a eliminar o poder igualitário dos germes e vírus e a garantir a manutenção de populações reduzidas à condição de mão-de-obra.

Gaia: um vírus nihilista mas não libertário

O Covid 19 é uma ameaça porque é subversivo. É essencialmente igualitário na morte e passeia por todos os ecossistemas e continentes. Mata ou ameaça matar governantes, gente do jet set, cientistas, técnicos, é o diabo à solta. Entra na casa do rico e do pobre. Não é vírus controlado por grupos terroristas regulares, mas é um vírus terrorista porque ameaça mortalmente todos sem distinção de raças, credos religiosos ou políticos, classes sociais ou profissionais.

A informação pública tem insistido em divulgar estes factos que atestam o seu comportamento social igualitário. Ele ameaça fatalmente sobretudo os mais velhos, não olhando à sua fortuna. Os riscos são idênticos estando sentado no senado norte-americano ou nos bancos do metro de Nova Iorque. Olhando para a experiência recente, podemos acreditar que, se afectasse apenas os mais pobres dentro das nossas sociedades, certamente não assistiríamos à reacção semelhante, quase unânime, de estados que se encontram em competição feroz. Teríamos certamente mais manifestações públicas de pesar, mais religiosidade, mais caridade pública por todos os cantos do mundo mas as cidades não ficariam desertas. Ou nem isso. O mundo não iria parar certamente. Se o vírus afectasse apenas os habitantes dos bairros pobres de Bogotá ou de Luanda, sem necessidade de intervenção internacional para o conter, teríamos certamente de lutar hoje para tornar essas mortes visíveis e para que houvesse recursos para a investigação laboratorial. A putativa demagogia surgiria em imagens que contrastariam a desgraça das vítimas com os trilionários gastos militares.

Quem governa vive agora no dilema de ter de enfrentar as ameaças duma crise interna e global com a redução drástica imposta pela circulação do trabalho e, por essa via, pela imobilização do capital e os custos duma pandemia que até agora mataram predominantemente os velhos. Pessoas sem papas na língua, à maneira de Lagarde, diriam que será a forma natural de resolver a alegada “insustentabilidade” das finanças da segurança social, por muito odioso que isso nos possa parecer. Enquanto isso, os outros ganhariam imunidade… e sequelas para o resto da vida. Não se morre da doença, morre-se de fome ou de um assalto na rua. Os realmente ricos sempre se souberam defender, acidentes à parte. Mas o vírus pode mudar, dizem-nos. As incertezas são grandes. A direita liberal fascista hesita.

Este COVID está longe de ser um vírus libertário. Originado numa cadeia animal improvável, nos mercados de animais selvagens chineses ou num laboratório qualquer (não faltam desmentidos científicos sobre esta última hipótese), num morcego, num pangolim ou noutro pobre bicho selvagem qualquer capturado e exibido como mercadoria viva, à semelhança do virús do “gripe das aves”, que na China é uma indústria, passou para os humanos com consequência devastadoras. Talvez seja apenas Gaia a defender a biodiversidade, a defender-se da nova peste planetária que nós, afinal, homo sapiens alienados da terra e da vida, tal como o faz com as monoculturas que essa espécie animal produz sobre a terra. Será Gaia a impor a redução do CO2, dos consumos hedonistas e de economias predatórias, a obrigar-nos a pensar realmente sobre a vida, os nossos valores e comportamentos. Ou talvez seja Deus, para os crentes.

Contudo, o melhor que se pode dizer é que este Covid 19 amplifica tendências anteriores, tensões latentes e pronuncia novos riscos de conflitos abertos no seio das sociedades ou entre os Estados. A começar pelo declínio dos EUA, não digo declínio tecnológico ou económico, mas como modelo cultural e até como evidência do fracasso duma America First arrogante no plano internacional. A insuficiência da resposta quer dos EUA quer da Europa face à ameaça vinda da China, face ainda à eficácia da sua resposta tardia e de outros países asiáticos, revela ainda o absurdo do militarismo e a impreparação face a ameaças exteriores. A externalização do trabalho para a Ásia teve como consequência a escassez de bens essenciais como antibióticos, luvas, máscaras, etc. que tiveram de ser comprados nesse espaço.

O vírus veio acentuar a crise ideológica do liberalismo e da sua teologia de mercado, as consequências da sua hostilidade aos serviços sociais públicos em nome do estado mínimo. A resposta foi o Estado de Excepção que tem vindo a reforçar o prestígio dos estados, a começar pelos governantes, forças policiais, militares e da media. Será uma resposta necessária em tempo de guerra, que tem sido considerada nos últimos dois séculos como um parêntices necessário na normalidade liberal. A esperança é, pois, que esta pausa seja breve pois o Covid 19 promete amplificar os problemas sociais, aumentar o desemprego, provocar a crise económica, enfim, provovar uma recessão mundial pior do que a de 2008, mostrando a incapacidade de resposta dos sistemas financeiros para lidar com eles em ambiente de deflacção que alimentam. As soluções que se anunciam nos EUA são do mesmo tipo das ensaiadas então, que não evitaram a degradação contínua dos níveis de vida e o protesto colectivo, conjuntural, de que o movimento Occupy Wall Street simbolizou. Perante a actual crise económica e social que alimenta o medo dos enclausurados, que não sabem o dia de amanhã, o estado de sítio está decretado.

Em Portugal, onde os rendimentos dos trabalhadores são baixos, com o emprego muito dependente da actividade de micro-empresas e de PMEs, onde o peso da massa salarial é elevada, onde as exportações chegam aos 44 por cento do PIB e o turismo representa 14 por cento ou mais, enfim, em que as empresas e pessoas até agora lutavam para sobreviver, os desafios são grandes. Maiores ainda para as pessoas que vivem da economia informal ou que se encontram em situação precária. Pior ainda nos países onde os níveis de pobreza e a falta de cidadania são ainda maiores.

Especulações finais: sociedades em guerra permanente ou sociedades de bem-estar?

As medidas de prevenção e de socorro que vêm sendo anunciadas em Portugal e um pouco por toda a parte, como inevitáveis, são temporárias. Paralisação da mobilização dos exércitos, redução das emissões do CO2, redução na mobilidade, no trabalho, no consumo, confinamento das pessoas são medidas que têm de ser temporárias. A situação é insustentável. Queremos o regresso rápido à normalidade mas não sabemos quando virá nem o que será o novo normal. Não sabemos como se comportará esse vírus fantástico e fantasmagórico. Será um vírus que, como a gripe, regressará anualmente com outras cambiantes? Ou desaparecerá como a “gripe espanhola” de 1918? Haverá vacina eficaz a breve prazo? Conseguiremos nós a imunidade? Que custos serão os diferentes estados obrigados a suportar perante a falta de solidariedade internacional? Com a redução acentuada do PIB anuncia-se o regresso aos rácios elevadíssimos da dívida. Pelo caminho temos a diplomacia de guerra que não parece adormecer. Tendo saído primeiro da crise sanitária, com a sua capacidade produtiva reforçada, a China pode desejar ocupar um lugar internacional que até agora não tinha perante um Ocidente fragilizado. Mais: o eixo Russia-China pode aparecer como uma alternativa capaz de agudizar as tensões desagregadores internas da União Europeia. Tanto a Rússia como a China, com o seu projecto global da Rota da Seda que agora quer estender à saúde, aparecem agora a ajudar países europeus em crise sanitária. Entretanto, nos EUA, a emissão de 4 trilliões de dólares para a “economia real” (destinados empréstimos a baixo custo a empresas de diferentes dimensões), para além de não ser eficaz na resolução dos problemas sociais emergentes, poderá vir a desencadear pressões inflaccionistas com consequências internas imprevisíveis. A hipótese do colapso do globalismo surge nesse horizonte próximo.

Não menos importantes serão as consequências sobre as auto-proclamadas sociedades do conhecimento, pelo agravamento da polarização social, degradação das classes médias e erosão social. Em países onde a economia informal urbana alimenta uma boa parte da população, os riscos de desobediência insurreccional podem ser a solução encontrada para situações de fome e especulação sobre os preços. No conjunto, a adaptação do trabalho e das empresas a novas situações laborais, com ênfase para o tele-trabalho doméstico, promete o regresso a uma normalidade socialmente degradada. Esta não passará pelo regresso à situação anterior, como não a houve depois de 2008, antes será a normalidade da permanente mudança, a adaptação e resiliência das estruturas de poder de sociedades profundamente desiguais. Tal conjuntura, em que se jogaria a hegemonia norte-americana (a começar pela posição do dólar no sistema financeiro mundial) não deixará de ter consequências no campo da diplomacia dura com os riscos inerentes.

Aberto o campo a todas as especulações, ninguém conseguirá prever o que acontecerá se a situação se prolongar para além do parêntesis trimestral desejado, com o agravamento dos focos de tensão interna e internacional que têm vindo a existir com a diplomacia norte-americana. O Estado de Emergência poderá então agudizar os processos degradação das democracias, já em curso nas últimas décadas, reforçar novos autoritarismos que hoje já se apresentam como necessários (veja-se o discurso sobre a eficácia do autoritarismo chinês). Parece-nos porém que as soluções para um mundo harmonioso, onde a vida merece ser vivida, passa no imediato pela multiplicação das acções locais de solidariedade, pelo reforço do poder das sociedades civis face às oportunidades de negócio emergentes, enfim, por acções que visem a subtracção do planeta à esfera do negócio, pela exigência de mudanças profundas na actual desordem internacional.

P. Guimarães

PN 27-29.03.2020

1Portugal. ISCTE. Gabinete de Comunicação. “Covid-19: Portugueses confiam nas instituições”. 24.Março.2020 (em linha)

2 Marta Moitinho Oliveira, É possível fazer oposição em “tempo de guerra”?, Público, 23 de Março de 2020, 6:25 (em linha)

3 “Secretário-geral pede cessar-fogo mundial para combater covid-19”, ONU News, 23 de mar de 2020 (em linha).

4 Jake Rudnitsky, “Russia Halts War Games on NATO Borders to Fight Coronavirus”, Bloomberg, 20 de Março de 2020.

5 Philip Bump, “The three phases of Trump’s insistence on pointing out that the coronavirus originated in China”, The Washington Post, 20 Março de 2020 (em linha)

6 Leandro Machado, “De cultos online a ‘não leia notícias sobre pandemia’: como as religiões estão lidando com o coronavírus no Brasil”, São Paulo, BBC News Brasil, 17 de Março de 2020 (em linha).

7 “The Global Patent Race for a COVID-19 Vaccine”, The National Law Review, 24 de Março 2020 (em linha).

8 SAMUEL BRANNEN; KATHLEEN HICKS, “We Predicted a Coronavirus Pandemic. Here’s What Policymakers Could Have Seen Coming”, Politico, 03/07/2020 07:00 (em linha).

9 D. Carrington, “Earth’s sixth mass extinction event under way, scientists warn”, The Guardian, 10.Julho.2017 (em linha)

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