Há um século:

Portugal e o centenário da independência do Brasil

Do traumatismo emocional que o país, a República e a Marinha sofreram com a “noite sangrenta” de 19 de Outubro de 1921 procurou-se alguma remissão, aproveitando a oportunidade do centenário da independência do Brasil, que prometia celebrações grandiosas.

De facto, aquele acontecimento deixou os Portugueses envergonhados perante o estrangeiro, com o Presidente António José de Almeida a querer renunciar ao seu cargo e a ceder finalmente perante a grande manifestação de apoio que se juntou frente à sua residência-palacete da Avenida António Augusto de Aguiar. O governo do liberal António Granjo, saído vitorioso das eleições gerais de Julho (embora sem maioria absoluta, pois só obteve 76 dos 160 lugares da câmara dos deputados, mas deixando longe o PRP, com 54), caiu naquela mesma noite do seu assassinato. E o do “golpista” coronel Coelho só durou até ao dia 5 do mês seguinte, com o capitão-de-fragata AN Francisco Luís Ramos na pasta da Marinha. Até à realização de novas eleições, sucedem-se episódicos governos do coronel Maia Pinto e do engº Cunha Leal, sempre com o capitão-de-fragata João Manuel de Carvalho como ministro da Marinha. Estes governos de transição integram personalidades liberais, “democráticos” (os do Partido Republicano Português) e gente de facções mais radicais mas de orientação política mal definida (“reconstituintes”, “outubristas”, etc, sempre com a figura de Álvaro de Castro por perto). Nas eleições de 29 de Janeiro de 1922 o PRP obtém 74 lugares e os liberais 34: invertiam-se as posições mas mantinham-se os governos sem maioria parlamentar. Em todo o caso, o executivo agora liderado pelo engº António Maria da Silva, carbonário do 5 de Outubro e figura cimeira do PRP, com o capitão-de-mar-e-guerra Vítor Hugo de Azevedo Coutinho na Marinha, vai lograr manter-se durante todo o ano de 1922: o ano em que se comemorava o centenário da independência do Brasil.

Estavam na época dos “raides” aéreos, cobrindo longas distâncias em frágeis aeroplanos para mostrar a novidade técnica mais saliente saída da Grande Guerra e, ocasionalmente, afirmar a bandeira ou a soberania nacional. A Armada tinha criado o Serviço de Aviação Marítima em 1917 e, a despeito da instabilidade ministerial e mesmo da sua chefia militar superior (os almirantes Gális, Mesquitela, Pereira Nunes e Alberto Pinto Basto sucedem-se com meses de intervalo), vinha preparando uma grande viagem aérea transatlântica, apontando justamente para as comemorações no Rio de Janeiro, onde António José de Almeida iria estar presente. Este, parece que apadrinhou o projecto com entusiasmo. E foi nesse sentido que em Março de 1921, Sacadura Cabral, Ortins de Bettencourt, Gago Coutinho e o mecânico Soubiran realizaram a travessia aérea Lisboa-Funchal, cumprida com êxito de pilotagem, navegação e prova do material (mas sem comunicações rádio).

A travessia aérea Lisboa-Rio de Janeiro, fez-se, com percalços mas esfuziante alegria no final. Contudo, a viagem presidencial teve episódios dignos de tragicomédia e reveladores das debilidades nacionais, salvando-se sobretudo pela personalidade e verve discursiva do Presidente luso. A saga havia sido marcada pela morte do embaixador do Brasil em Lisboa – aquele que havia entregue em mãos em Belém o convite do Itamarity – quase coincidente com o início da aventura aérea. Talvez um mau presságio.

O hidroavião Fairey de Sacadura e Coutinho, especialmente preparado, largou do Tejo a 30 de Março de 1922, escalou Las Palmas (com o aviso Cinco de Outubro e a canhoneira Bengo a balizarem o trajecto, longo de 710 milhas náuticas) e amarou na larga baía de S. Vicente de Cabo Verde a 5 de Abril, onde já se encontrava o cruzador República do comando de Oliveira Muzanty, após um lance de 910 milhas. A etapa seguinte (Mindelo-Ilhas de Fernando Noronha, já território brasileiro, mas distante ainda do Natal, talvez 200 milhas por nordeste) era a mais longa, estimada em 1.260 milhas; por isso, o República foi postar-se a meio-caminho, como “navio-farol” e posto de reabastecimento ou de socorro para caso de necessidade. De facto, esta ocorreu junto aos penedos de S. Pedro e S. Paulo (igualmente de jurisdição brasileira, em pleno mar Atlântico) quando, ao amarar, um dos flutuadores de se partiu e o aparelho se afundou, não sem que os marujos do República tivessem podido salvar os aviadores, algum equipamento e mesmo o motor Rolls Royce da aeronave.

Perante este imprevisto e sendo já notória a excitação com que a opinião pública brasileira aguardava a chegada destes destemidos “aeronautas”, o governo de Lisboa decide e a Marinha mobiliza-se ao máximo para o completamento da missão. Um segundo Fairey é enviado para Fernando Noronha por navio mercante. Mas, já a 4 de Maio, também este claudica por avaria mecânica e se afunda sendo os dois tripulantes resgatados por um navio inglês que navegava perto. E larga então de Lisboa o cruzador Carvalho Araújo comandado por Cisneiros Faria com um terceiro aparelho (mais tarde baptizado de Santa Cruz e que em 1927-29 ainda prestou serviço em Macau, tal como o motor Rolls Royce salvo nos Penedos) que permite a retoma da travessia e a chegada ao Recife a 5 de Junho. Daí para o sul, a viagem foi quase um passeio ao longo da costa brasileira, com as escalas em Salvador, Porto Seguro e Vitória a serem só meras antecipações dos festejos populares extraordinários que marcaram a chegada à baía de Guanabara a 17 de Junho. A Marinha havia cumprido os seus propósitos e agraciava agora os dois heróis-do-ar com a promoção por distinção a capitão-de-fragata – Sacadura Cabral, piloto emérito que sucumbiria três anos depois aos comandos de outro “hidro” no Mar do Norte – e a contra-almirante – Gago Coutinho, o eclético geógrafo que havia equipado o sextante com um horizonte artificial, apropriado para aquela navegação aérea em latitude. Em Lisboa, o general Gomes da Costa e outros cidadãos quotizam-se para comprar os colares da Torre-e-Espada com que foram agraciados, o Presidente foi ao Arsenal felicitar a Armada pela gesta daqueles seus filhos, e a alta oficialidade naval, de farda de gala, foi dias depois a Belém retribuir essa cordialidade. Com este feito, “a Briosa” ajudava também a limpar a má imagem da “marinha das revoluções” e da marujada “à solta” nas ruas da capital. E Portugal pôde dizer que comemorava a independência da sua antiga colónia de uma forma inédita e virada para o futuro. O que era inteiramente verdade, embora lhe faltasse a potência industrial e uma esclarecida estratégia político-económica, onde lhe sobrava a intrepidez e a ousadia.

Mas não foi assim com a viagem do Presidente António José de Almeida. O navio de passageiros Porto (dos Transportes Marítimos do Estado) foi o escolhido mas estava em más condições e teve de sofrer reparações e beneficiações de última hora. Porém, o que se seguiu teve aspectos quase patéticos, altamente desprestigiantes e falhando os principais objectivos que aquela alta representação nacional perseguia.

A meta consistia em chegar ao Rio de Janeiro a 7 de Setembro, dia histórico do “grito do Ipiranga” por D. Pedro IV. O embarque da comitiva em Lisboa foi marcado para o dia 20 de Agosto, depois adiado para 22, a seguir para 24 e ainda para 26. Os dias corriam e só a 1 de Setembro o Presidente entra finalmente a bordo, com as devidas honras militares. Mais dois dias esteve o navio estacionado frente ao Terreiro do Paço sem se perceber porquê, com jornais a dispararem as mais desencontradas versões e os dichotes populares a não pararem nas artérias da capital.

Finalmente largou no dia 3, para ter logo de parar nas Canárias para reparar as câmaras frigoríficas e aventando-se mesmo a hipótese de fretar um navio inglês que passava na Madeira. Mas o Porto lá seguiu, com um andamento inferior ao previsto, pouco ultrapassando os 10 nós. Assim chegou o dia 7 de Setembro, com o navio ainda em pleno oceano e o presidente brasileiro Epitáceo Pessoa sem poder abraçar o único chefe de Estado estrangeiro que convidara para a cerimónia-chave do centenário!

O Porto, com a luzida comitiva portuguesa, atingiu finalmente o Rio de Janeiro a 17, dez dias depois do almejado! O Pavilhão de Portugal (aquele que está hoje no Parque Eduardo VII, baptizado “Carlos Lopes”) e que integrava também a Exposição Internacional do centenário, estava ainda com as obras por acabar e foi coberto com uns painéis pintados… para não destoar. Fiascos atrás de fiascos.     

De todo este cortejo de impreparações, inépcias e pequenos acidentes salvou-se o desempenho tribunício de “Antón’ Zé” (como era chamado popularmente). As burguesias cariocas e a comunidade portuguesa exultaram com os seus discursos apaixonados. Segundo uma tese académica, e a título de exemplo, o Jornal do Comércio local insere um artigo considerando-o «o maior orador, a seguir a José Estêvão, acrescentando que “nenhum o iguala em brilho verbal, em pompa de dição, na força de expressão, na grandiosidade da eloquência”». Mais adiante, escreve: «E agora o Dr. António José de Almeida entra num terreno sensível, para ele e para os seus ouvintes: o problema religioso. Mas quer abordá-lo e fá-lo de maneira magistral, tecendo elogios à religiosidade brasileira que vai fazer erguer no cimo do Corcovado uma poderosa estátua de Cristo Redentor […] fala de si próprio, confessa-se livre-pensador ‘profundamente religioso’ e diz que se tivesse a dita de ver o Cristo na baía de Guanabara o saudaria como seu antepassado moral […]. E quase a terminar confessa-se cansado de tantas emoções, mas ao mesmo tempo a viver uma das horas mais felizes da sua vida.» (in Mª Amélia Sampaio, “Visita…”, dissert. mestrado história, FL-UL, 2012)

Ao décimo dia da sua presença na capital federal do Brasil, o presidente português despede-se do povo que tão calorosamente o acolhera, apõe no estandarte da Escola Naval do Brasil (por nós levada em 1807) o laço da Torre-e-Espada – como já antes condecorara em sua casa Rui Barbosa e se extasiara perante a beleza da obra do Real Gabinete Português de Leitura. Sob uma trovoada de aplausos, mais uma vez lança com a sua voz vibrante: “Viva o Brasil! Viva Portugal!”

Porém, não espera pelo Porto e opta por embarcar no Arlanza, da Mala Real Inglesa. Já com a saúde debilitada, o Presidente tem pressa porque quer chegar a Lisboa no dia 5 de Outubro, data em que dois anos antes fora eleito pelo Congresso da República e onde queria celebrar a Revolução, com tanta ou mais ênfase, depois das tristezas e emoções do último ano. Mas nada lhe corre bem. O paquete inglês tem de escalar portos brasileiros, toca ainda no Funchal e só entra no Tejo no dia 9, com a comitiva presidencial e os dois intrépidos homens da travessia aérea. Nesse dia, Joaquim Manso julga dever titular no seu Diário de Lisboa: «Haja juízo!».

João Freire / Março.2022

(Uma versão diferente desta narrativa saiu integrada no livro bilingue port.-ingl. de Hugo Baptista Cabral Travessia Aérea do Atlântico Sul, que acaba de ser lançado)

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