Agora:

Que balanço provisório se pode fazer desta guerra da Rússia à Ucrânia?

Estivemos a aguardar pelo dia do cessar-fogo na Ucrânia para divulgar este escrito. Havíamos admitido que, consolidado o poder militar russo na região do DonBass e na faixa Carcóvia, Dnipro, Zaporïzia, Mariupol, Melitopol, Kherson, Mikolaïv, e aproveitando o simbólico dia 9 de Maio, o Kremlin anunciasse a sua “grande vitória” e, “magnânimo”, deixasse Odessa aos ucranianos e aceitasse encetar conversações de paz com base nos Acordos de Minsk/OSCE de 2014. Pelos vistos, enganámo-nos, e as vítimas e destruições vão continuar, chegando talvez até à Transnistria.

A guerra tem sido devastadora, com uma destruição que se julgava já impossível em cidades modernas, um número muito elevado de vítimas e milhões de deslocados. Ultrapassámos o tempo d’O Don tranquilo do Cholokhov?… Foi o surpreendente regresso do milenar fenómeno da guerra ao espaço europeu. A forma como as opiniões públicas ocidentais receberam as imagens de destruição e das atrocidades cometidas mostra bem como as nossas sociedades estão longe de perceber todos os inevitáveis em tais conflitos. Deviam perguntar a sírios, iraquianos ou afegãos – às pessoas comuns, não a líderes ou porta-vozes. É a diferença entre o “ter de fazer” (a guerra, ou como escapar a ela) e a mera opinião; ou então face a convicções geradas em ambiente comunitário, seja ele tradicional ou pós-moderno.   

(Nota a, “bélica”. Ao contrário do que se poderia esperar, a guerra que os russos desenvolveram na Ucrânia para a forçar a retornar à sua tutela foi uma guerra terrestre convencional, sobretudo na manobra táctica, mas também em grande parte nas armas utilizadas (carros blindados, infantaria, artilharia de campanha e alguns mísseis mais modernos mas ainda do mesmo domínio táctico, apenas com um apoio aéreo mais sofisticado). Porém, deve dizer-se que isso foi também consequência da eficaz oposição que lhe foi feita pelo exército ucraniano, pela muita população civil que se mobilizou para lhe prestar auxílio nas cidades e, em geral, pelo enorme espírito de resistência de que deu mostras, quer os que permaneceram (e foram muitas as vítimas fatais ou estropiadas), quer os que ordeiramente enfileiraram entre os milhões de refugiados que passaram a fronteira para ocidente. Mas, no plano militar, essa defesa dos ucranianos também foi essencialmente de natureza convencional, quer táctica, quer no que toca ao armamento. E isto encaixou-se bem face ao modo da ofensiva adversária. Além disso, pelo que se pôde apreciar ao longo das semanas, o exército regular ucraniano mostrou ser maior, mais competente e eficaz em combate do que aquilo que se poderia supor. É assim que vemos imagens de trincheiras, obstáculos rodoviários, minas, algumas movimentações de soldados de infantaria e bocas-de-fogo em acção. Nunca nos são mostradas outras armas mais modernas de defesa anti-aérea (provavelmente mísseis de médio alcance) ou dispositivos electrónicos de detecção ou “engodo” (sobre os quais nada compreenderíamos). De resto, o termo “míssil” utilizado em profusão pelos media é altamente equívoco (sobretudo devido à ignorância dos jornalistas). À partida, só significa que não é um “projéctil”, mas um engenho explosivo auto-propulsionado, seja tele-guiado a partir de terra à medida que se vai aproximando do alvo, seja com “cabeças inteligentes”, seja ainda apenas regulado à saída e que acertará no alvo… ou não (como acontece com o fogo de artilharia). Mas isso nada indica quanto à potência e ao modo de emprego de tais engenhos. Existem mísseis do mais variado tipo: há mísseis balísticos intercontinentais (armados de “cabeças” nucleares); há outros de “médio alcance” (de 2 a 3 mil quilómetros de raio, capazes de trajectórias rasantes, também chamados “de cruzeiro” e sempre de grande capacidade destrutiva, mesmo se não atómica); outros ainda “tácticos”, paralelos à artilharia clássica, para emprego no campo de batalha; e há ainda uns “foguetões” portáteis, individuais (ou quase) contra alvos terrestres ou aéreos (como os Strella da Guiné), que vieram substituir as Bazookas ou as armas anti-carro da IIª guerra mundial. Eis um “manual técnico” que os jornalistas deviam estudar para cumprir melhor a sua função informativa e não baralhar ainda mais os telespectadores com o martelar de termos técnicos mal perceptíveis)

Sobre outras “frentes de guerra” (o ciber-espaço, os drones, a “espionagem por satélite” e talvez outras), obviamente nada sabemos, a não ser aquilo que os principais poderes decidem libertar para o espaço mediático.

A destruição maciça de zonas urbanas, tanto por manobra deliberada (como em Mariupol) como por “danos colaterais” de acções sobre o adversário, implicando pesadas perdas humanas, foi o resultado mais brutal – e para nós inaceitável ou dificilmente compreensível – desta surpreendente guerra que foi plantada nos confins da Europa. A reacção destas populações de classe-média, a princípio insuspeitada, foi extraordinária: pelo espírito de resistência que rapidamente as possuiu, pela forma como aceitaram os alvoroços das sirenes de alarme e o desconforto da vida em abrigos, pelo modo disciplinado e paciente com que encararam as evacuações e os exílios, e sobretudo tentando “socorrer os feridos e enterrar os mortos”. Também neste capítulo se revelaram algumas surpresas, além da valia da sua defesa militar: a disponibilidade dos bombeiros, a afluência de voluntários para o controlo urbano ou as intervenções incentivadoras dos líderes (sejam eles o que forem), multiplicadas pelos “novos media”, no país e no mundo. Mas pouco nos era mostrado do espaço social do campesinato e dos trabalhadores e habitantes das pequenas cidades e vilas, onde seriam escassos os smartphones e faltavam os recursos para organizar uma fuga. Ultimamente, isto foi-nos mostrado um pouco mais. 

Como nas outras guerras de que temos memória, a informação e a propaganda ocuparam um enorme lugar na percepção que as pessoas, a distância, iam tendo da evolução do conflito. Para nós, a Ocidente, foram-nos servidos todos os tipos de relatos, comentários, análises e cenários do que se ia passando. Na Rússia, pelo contrário, era a versão do “homem unidimensional” que dominava em absoluto. E no caso português, quer a “pública” RTP, quer os outros dois canais privados de televisão (rapidamente associados à Sky News e à CNN), conseguiram realizar notáveis esforços de reportagem e de debate sobre todos estes acontecimentos (mas, compreensivelmente, sempre com uma perspectiva favorável aos invadidos ucranianos). Neste aspecto, o jornalista Pedro Caldeira Rodrigues tem apontado com razão “a simplificação dos acontecimentos, muitas vezes reduzindo-os a um conflito entre ‘bem’ e ‘mal’, numa espécie de dicotomia religiosa” que resulta num quase unanimismo reforçado pela repetição das mesmas histórias dia após dia pelos diversos canais, nacionais ou internacionais. E a parcialidade dos relatos orais e visuais do conflito foi-se acentuando com o andar dos meses, não por culpa dos repórteres no terreno mas por quem orienta a informação dos seus canais. Pela nossa parte, no tocante a uma melhor compreensão do que se ia passando e dos seus efeitos, a mais ou menos breve prazo, apreciámos os comentários do jornalista Rui Cardoso, a “sensibidade” de homens bons conhecedores da realidade russa como José Milhazes e o “constrangido” Evgueni Mouravitch, bem como o saber histórico-militar dos generais fora-do-serviço Pinto Ramalho, Vieira Borges ou mesmo Arnaut Moreira, enquanto o especialista Rogeiro continuou a exibir as suas boas fontes de informação. Da multitude de outros especialistas não guardámos registo, por muito pertinentes que fossem as suas intervenções.   

Posteriormente, vieram as imagens de atrocidades sobre civis e a especulação subiu de tom. Os Tribunais de Haia procuram inquirir. Alguns falam de manipulações. É horrível, mas é o comum em guerras, sobretudo em meio urbano e com tropas mal disciplinadas. E esta é também, em parte, uma guerra civil (até no armamento, basicamente o mesmo dos dois lados), o que agrava estas circunstâncias. De facto, foi surpreendente constatar, com o prosseguimento as hostilidades, como esta guerra regressou ao modelo clássico de operações terrestres (até com a presença de voluntários ou mercenários vindos de fora, além de armas, como em Espanha), com a novidade adicional do uso do acercamento, flagelação e mesmo casos de destruição maciça de importantes cidades para que o invasor chegasse a um ponto que lhe fosse favorável nas negociações, e limitasse a inusitada capacidade bélica e de resistência psicológica dos combatentes fiéis a Zelensky. Noutros tempos chamar-se-ia uma “nação heroica”. E é mesmo perturbante o paralelo histórico que pode fazer-se entre a resistência desesperada dos defensores de AzovStal em Mariupol e a do Alcázar de Toledo.

A vaga de refugiados ucranianos que pouco a pouco foi engrossando para Oeste, tendo chegado a atingir mais de 4 milhões de pessoas, já em si muito impressionante, teve como consequência imediata suscitar uma bela resposta de solidariedade por parte dos países europeus, sobretudo daqueles que têm fronteira com a Ucrânia, com a Polónia em primeiro lugar. É curiosa a forma como esta conjuntura incidiu sobre as autoridades deste último país, da Hungria e da Eslováquia, três governos “mal-comportados” da UE em matéria de direitos humanos e do cumprimento de certas regras democráticas vigentes, que aproveitaram a oportunidade para se mostrar tão acolhedores de refugiados como quaisquer outros, e ainda mais, por estarem na “linha da frente”. De todos eles, o governo de Budapeste parece ser o mais hipócrita, pela relação que mantém com o Kremlin.

Na “linha da frente”, mas face às veladas ameaças militares de Putin, colocou agora a NATO algumas novas forças terrestres e aéreas em alerta, para sinalizar a Moscovo que não tem “buracos” na sua barreira defensiva. São contingentes multinacionais de pequena escala (com alguns soldados US, talvez menos de 20 mil homens, o que elevou o total para 100 mil) mas bem equipados e em prontidão. Isto deu aso à renovação das críticas de certa esquerda contra a “re-militarização e armamentismo” da Europa. No entanto, é significativo que a Hungria só tenha aceitado a presença de uma pequena unidade militar da Croácia. O problema destas “democracias especiais” dentro da UE ainda não acabou. E Moscovo não desaproveitará qualquer oportunidade para desagregar a acção colectiva da União Europeia.

Mas, mais do que isto, o prolongamento da guerra (já há dois meses e meio) e as acções de penalização económica que a solidariedade ocidental desencadeou veio a criar um novo tipo de confronto económico-financeiro (devemos evitar chamar-lhe “guerra”, pela banalização do seu sentido próprio, como agora podemos observar melhor) entre o Ocidente e a Rússia. E, para quem mantém as suas simpatias pelo modelo que a União Soviética configurou e sobretudo não consegue refrear a sua antipatia (animosidade clara, em muitos casos) pelo capitalismo americano, eis o pretexto e a oportunidade para verberar o  cerco que o “império yankee” estaria a fazer aos Russos: com a NATO, ameaçando com armas as suas fronteiras; com a hostilização económica, minando as reservas de profundidade de que Moscovo dispõe (o seu imenso território e as armas nucleares, inúteis neste caso). Mas, à parte estes sentimentos e referências ideológicas sobreviventes do século XX, é também possível que uma análise objectiva e realista da situação não deixe de reconhecer este novo tipo de hostilidade entre grandes potências, sem que tal permita prever como parar o mais breve possível a guerra no terreno, com o seu cortejo de vítimas e destruições, de crimes-de-guerra e todo o tipo de manipulações informativas.

Numa anterior tentativa de análise, errámos ao tratar o tema dos “neo-nazis” com ligeireza e de forma simplista. De facto, o papel da presença desses grupos políticos deve ser considerado de modo mais sério. Continuamos a sustentar que o nacionalismo ucraniano era ténue e recente (até ao dia 24 de Fevereiro último). Nem o passado histórico, nem a língua ou a religião lhe davam um suporte suficiente. Em memória, restaria aos ucranianos o ressentimento do brutal processo de colectivização agrária dos anos 30 e de algumas outras atrocidades estalinianas, mas talvez menos os massacres de judeus em 1941-42 quando os alemães ocuparam o território e alguns desses nacionalistas os receberam de braços abertos. É bem provável que, entre os diversos grupos que na Praça Maidan em 2014 fizeram tombar pela violência o governo pró-russo de Yanukovytch, os mais extremistas de direita tivessem como referência ideológica esses nacionalistas pró-nazis. E é quase certo que os voluntários estrangeiros que terão ido ajudar o tal “batalhão Azov” nesta guerra provieram dos extremistas de direita mais brutais de diversos países. Mas alguns apontam igualmente que, na Rússia de Putin, muitos skinheads e grupos militantes violentos têm sido incorporados entre as forças políticas que o apoiam, aproveitando o seu nacionalismo dogmático e exaltado contra as raras expressões mais liberais que existem na sociedade russa.

(Nota b, “memorial”. Uma referência pode ser feita à irrelevância histórica que tem hoje o mito que a memória anarquista alimentou sobre Makhno e a sua insurreição camponesa em 1919-21, através do seu livro La révolution russe en Ukraine, bem como os de Archinoff (A História do Movimento Macnovista) e de Voline (3º vol. de La révolution inconnue), e de inúmeros artigos publicados em revistas e jornais do movimento. Durante décadas, a par da guerra de Espanha e um pouco da jacquerie camponesa zapatista, a ousadia e as vitórias temporárias do exército camponês ucraniano liderado por Nestor Makhno contra “brancos” e bolcheviques, no quadro da guerra civil que então devastou a Rússia, foram vistas como um exemplo de heroicidade e da supremacia moral de um povo em revolta contra elites militarizadas e dispondo dos mais abundantes recursos económicos e políticos. Isso não deixou de ser verdade, mas o certo é que o caso não foi mais do que um episódio de um conflito bem superior, o qual, uma vez resolvido, deixou a memória da insurreição camponesa confinada a algumas estantes de biblioteca ou para alimento dos seus crentes. Folheando hoje aquelas obras, nem sequer a sua toponímia mais significativa vemos subsistir nos noticiários actuais e nos mapas do leste da Ucrânia onde sobretudo se desenrolou a sua acção. À parte Kirkov ou Mariupol, cidades como Ekateriloslaw ou Goulaï-Polé parece terem desaparecido do mapa (e da memória das gentes). É certo que também não são agora assinalados locais como Estalinegrado, onde tanto se jogou do destino da IIª Guerra Mundial, mas aí a razão prender-se-á com o período soviético da destalinização, que lhe mudou o nome para Volgogrado. Os comunistas sempre foram peritos em reescrever a história. Mas do lado da exaltação anarquista da arte guerrilheira de Maknho e dos seus subalternos, também houve silenciamentos de práticas e acontecimentos que podiam beliscar a sua “boa causa”. Nomeadamente, o tratamento dado aos prisioneiros de guerra após um combate ou uma batalha, em que os oficiais inimigos eram logo fuzilados e os simples combatentes “convidados” a passar a integrar a guerrilha camponesa (talvez como Zapata no México). Os exércitos de Franco fizeram o mesmo em 1936-39 e o facto foi justificadamente denunciado. Mas em causa própria… é bom não dar armas ao adversário, não é?…)

Num exercício de análise do processo negocial “amplo” (de que os encontros presenciais à mesa, por delegados das duas partes, seriam apenas a face visível), pode dizer-se, desde logo, que o plano da liderança russa sofreu o primeiro desaire quando esta, graças à resistência oposta no terreno pelos ucranianos e à maciça solidariedade que estes receberam do Ocidente, foi obrigada a negociar com a outra parte. É claro que, durante exasperantes semanas, se tratou apenas de sinalizar as posições dos dois “partidos” e, na prática, de se tentar abrir alguns corredores humanitários para permitir a evacuação de gente sitiada. Nem com a ida de Guterres a Moscovo as coisas se alteraram substancialmente, como prova a difícil saída de alguns civis dos subterrâneos da fábrica AzovStal em Mariupol, onde resistem os últimos combatentes nacionalistas, que Moscovo não prescindirá de esmagar fisicamente ou de exibir aos seus como troféus-de-guerra.

Mas, sempre nesse mesmo plano analítico, se as duas partes chegarem finalmente a um cessar-fogo para prosseguirem negociações mais substantivas sobre questões territoriais – o que todos ambicionamos por razões humanitárias –, tal facto constituirá também uma vitória para a Rússia, ao constranger a Ucrânia a ceder no princípio da inviolabilidade territorial do seu Estado. É certo que essas outras negociações irão necessariamente prolongar-se e ninguém sabe dizer se as hostilidades não retomarão a qualquer momento. Mas obtido o mais urgente – o parar da matança e das destruições –, o futuro nos revelará qual o encontro de cedências aceitável pela Ucrânia e pela Rússia, sem comprometimentos da segurança para Europa.

Uma outra observação pode aqui ser feita. É a de que nenhuma das potências que à distância mediam forças – a Rússia e a NATO/Estados Unidos – estiveram alguma vez a ponto de galgarem o tecto fatídico do emprego de armas atómicas. As alusões, as referências à superioridade russa ou as movimentações da localização desses meios fatais (por ambas as partes) nunca terão passado disso mesmo: mensagens na troca de ameaças entre ambos e propaganda para efeitos sobre as opiniões públicas. Nem mesmo a megalómana liderança russa terá alguma vez perdido a noção de que isso seria impraticável, por implicar a sua própria destruição. E Biden e a NATO mostraram toda a prudência neste domínio jogando antes com os meios ao seu dispor para constranger a parte adversa. Por exemplo, não ouvi ninguém falar dos submarinos atómicos de ambos os lados, talvez as armas mais ameaçadoras nesse tipo de jogo, mas que nunca terão deixado de se movimentar sob os oceanos e de suscitar do potencial adversário as correspondentes dinâmicas e manobras de detecção.

Neste ponto, a perspectiva dos “neutros” Finlândia e Suécia virem a integrar a NATO é questionável sob vários pontos de vista, como tem sido assinalado por quem pensa “a esse nível”, bem acima dos comentadores mais corriqueiros. Não está em causa a vontade desses dois povos em se sentirem assim mais protegidos face às ameaças do Leste, como já foi o caso dos países Bálticos. Mas (além da Aliança precisar talvez, ou desejavelmente, de unanimidade interna para acolher algum novo membro no “clube”) se isso serve para atender às tensões geoestratégicas mundiais das próximas décadas. Ora, neste ponto de vista, não sendo previsível uma alteração significativa da natureza do poder político assente em Moscovo, uma “zona de transição” na Öst-Europa seria porventura desejável: países de regimes democráticos, até integrantes da União Europeia e “próximos amigos da NATO”, mas sem darem pretexto à liderança russa para se declarar sob ameaça yankee/Ocidental.

Outra diferença sensível em relação a momentos de “tensões de guerra” anteriores (por exemplo, para o armistício na Coreia, a crise-dos-mísseis em Cuba ou a finalização da guerra no Vietname) é que a panóplia de media e de argumentos usados se alargou enormemente. Nesses tempos – de que já só alguns temos memória directa – as trocas de mensagens e ameaças ou simples alusões faziam-se exclusivamente através do trabalho profissional dos jornalistas, que chegava até ao público pelos jornais do-dia-seguinte ou pelos circunspectos noticiários das rádios ou já das televisões. Hoje, é o que sabemos… Não apenas pela sua multiplicidade, mas igualmente por uma nova organização dos discursos e uso das palavras, e pelos padrões estéticos que dominam a difusão das imagens e dos sons. Tudo isto “mexe” com as nossas cabeças e confunde mais do que esclarece.

(Nota c, “estratosférica”. Deixem-me aqui fazer um parêntesis de imaginativa fuga para diante. Pelo caminho que as nossas sociedades mais avançadas estão seguindo, não é loucura pensar que, dentro de um século ou dois, o pensamento e a comunicação humana se tenham alterado bastante em relação ao que hoje conhecemos. A interacção oral (e escrita) far-se-á cada vez mais sob a forma de mensagens sincréticas que incluirão muito calão tecnológico ou de subfalares comunitários. A literatura desaparecerá, ficando apenas confinada a alguns redutos sustentados por ratos-de-biblioteca. A sexualidade natural baseada nos dois géneros ter-se-á disperso por uma diversidade de atracções, prazeres e afectos que inviabilizam a existência da família nuclear e condenarão talvez as crianças a uma quase exclusiva educação escolar. A actividade mental dos humanos alargar-se-á a diálogos cada vez fortes ou frequentes com o robot-computador (desenvolvendo a sua própria inteligência artificial) e com determinados animais (cujo cérebro e psicologia terão, entretanto, sido já estimulados pelos estudos científicos), com os quais se estabelecerão inevitavelmente laços de companheirismo e afecto… Mas, a despeito de tudo isto, é bem provável que grandes comunidades de humanos se tenham barricado em torno de velhas, renovadas ou novas crenças dogmáticas, sejam elas de tipo religioso, étnico ou neomilenaristas-espaciais. Não sabemos que poderes e com que meios alguns dominarão o mundo mas podemos apostar em que haverá disputas e conflitos com resultados muito incertos.)

Quase todos os analistas e estrategas prevêem que a China sairá desta crise com uma posição reforçada na ordem internacional. Pode ser que ela venha agora a bascular para uma aliança não-dita com Moscovo, o que desencadearia uma nova “guerra fria”, uma forte travagem da “globalização” e um abalo muito prolongado da economia internacional. Até porque o risco de um novo governo “republicano” (tipo Trump) em Washington se mantém à vista. Mas a maioria dos bons estudiosos inclina-se para que, com a sua sabedoria tradicional, a China prossiga a estratégia que vinha praticando, ganhando mercados no mundo inteiro, alargando a sua classe-média, dominando por fim a economia mundial, ao mesmo tempo que velaria ciosamente por uma afirmação regional sem rivalidades no extremo-oriente – para, se viesse a ser o caso, enfrentar com sucesso os Estados Unidos no Pacífico.

Escandalizada com a agressão russa à Ucrânia, a Europa empertigou-se e superou, ao menos por um momento, as suas divisões. A experiência, a prudência de Joe Biden ajudou muito a um melhor entendimento entre os dois lados do Atlântico Norte, a revitalizar a NATO e a que “o Ocidente” pudesse fazer face aos problemas sucessivamente colocados por Putin.

Enquanto o “mundo islâmico” (sempre incerto e conflitual entre si) e a Índia aguardam atentamente a próxima evolução do sistema de relações internacionais, os Europeus estão agora em boas condições para redefinir o seu projecto de União Europeia. Não será fácil mas, clarificadas as condições básicas da sua segurança e defesa (vide a “Bússola estratégica” agora acordada), seria possível relançar este desígnio, não tanto para continuar o consumismo e o enriquecimento das classes privilegiadas mas antes para estimular a ajuda às zonas mais frágeis do globo, reforçar a solidariedade intra-europeia e melhorar a arquitectura institucional de um sistema democrático complexo (desde o nível local e regional, ao nacional e ao “comunitário”-UE), já desgastado por muitos anos de os mesmos ocuparem o poder e sob a visível ameaça eleitoral de forças “iliberais”, como agora delicadamente se lhes chamam.

Situado no arranque de novas orientações para atender à emergência climática e a uma implantação plena da “economia digital”, o choque dos bloqueios derivados desta guerra e das sanções económico-financeiras tomadas contra Putin trouxeram já efeitos económicos negativos para o crescimento e o bem-estar dos povos mais afortunados: aumento dos preços do petróleo (e consequentemente dos transportes, da electricidade, etc.), engarrafamentos logísticos, inflação acima do já esperado, e mesmo escassez e pobreza agravadas nos países mais frágeis. Uma das maiores incógnitas destas novas condições mundiais será ver como as extensas “classes médias” desses países ricos reagirão a uma baixa do seu “standing de vida” e como os seus pobres reagirão a ela.

Apesar disto e dos seus efeitos agravadores nos descontentamentos já presentes nos países democráticos, é possível que a “transição energética” se acelere agora – como reclama uma parte da “classe jovem” mundial –, não só nas fontes que temos vindo a explorar mas igualmente na operação dos transportes marítimos, aéreos e rodoviários, no aquecimento, iluminação e funcionamento das nossas cidades, e nos modos de produzir electricidade, que será o tipo de energia mais avidamente procurada e indispensável para dar alento a uma melhoria global dos modos de vida contemporâneos. No que toca aos hidrocarbonetos – e enquanto a questão do hidrogénio ou de outra forma mais segura de utilizar a energia nuclear não atingirem fase operacional –, uma reorganização do sector do gás natural tornar-se-á crucial para as próximas décadas. Os gasodutos, a distribuição e o transporte marítimo serão desenvolvidos, o que implica a existência de condições de segurança nos oceanos – que por sua vez exigem algum consenso internacional (quanto ao combate à pirataria e à poluição) e uma clarificação dos equilíbrios estratégicos entre as grandes potências. Nestes termos, a ONU está condenada a subsistir, apesar da sua inefectividade em certos domínios.

Quanto à dinâmica e modo de funcionamento da economia mundial nos próximos 30 anos (crescimento, trocas comerciais, regulação financeira, etc.) não ousamos sequer abrir a boca, tantas e tão diversas são as opiniões dos especialistas a que temos acesso. “Incerteza”, é a palavra mais ouvida.

JF / 6.Maio.2022

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