Ensaio:

O Ocidente: sim, mas

A referência ao “Ocidente” voltou a ser activada nestes últimos meses de crise mundial. Julgamos que por boas e más razões. Eis, simplificadamente, a análise que faço deste processo histórico.

Muitos dos que verberam o Ocidente fazem-no numa espécie de “ajuste de contas” do que vai mal pelo mundo, da flagrante desigualdade económica até à degradação ambiental. Mas, além dos que não partilham as mesmas referências políticas e culturais – nomeadamente nos espaços do islamismo, do budismo, induísmo, confucionismo e outras antigas filosofias orientais –, boa parte dos críticos provêm precisamente de países ditos “ocidentais”. Manifestação de auto-flagelação ou sinal decadentista de estados de abundância e bem-estar? Além disto, populações consistentes originárias das Américas, da Australásia e sobretudo de África acusam os Europeus de crimes e violências que teriam cometido, logo quando Portugueses e Espanhóis iniciaram a primeira globalização, e depois Holandeses, Ingleses e Franceses a tornaram maciça e industriosa, com a exploração mercantil e o esclavagismo, mas também com o predomínio da sua religião monoteísta.

Fugindo às interpretações psicologistas, parece hoje pacífico reconhecer que a “expansão” europeia para o além-mar teve motivações de lucro económico e de alargamento da visão cristã do mundo, além de apetites de poder imperial e geopolítico. Não espanta que assim fosse, após uma longa Idade Média marcada pela conquista, o poder regaliano, a espiritualidade e o fanatismo religioso. Assim como não custa perceber que os europeus sentissem alguma supremacia civilizacional sobre os povos que acabavam de descobrir, pois muitas vezes não encontraram neles uma religião codificada, uma língua escrita nem cidades edificadas em duro, pelo menos na África negra, na Oceania e em boa parte do continente americano. Por isso lhes chamaram selvagens, ou primitivos, coisa que não aconteceu com os povos do Oriente asiático. E se os mais piedosos se condoeram com esse estado “de natureza” (que realmente escondia sociedades e culturas mais complexas, que só modernamente antropólogos foram capazes de identificar), muitos mais foram os que disso se aproveitaram para desenvolver o seu “comércio desigual”.

É também sem qualquer rebuço que podemos qualificar de “imperialistas” os desígnios desses poderes soberanos europeus, desde logo em submeter pela força as dispersas resistências de alguns povos locais graças à sua superioridade militar, mas igualmente visíveis nas disputas, guerras e alianças que trocaram entre si ao longo dos séculos XVI a XVIII. Mas não se pode também silenciar os esforços sanitários e educativos levados por esses primeiros civilizadores, principalmente os missionários cristãos aí empenhados, quer em seguida e em maior número pelos verdadeiros colonos, quase todos expulsos da Europa pela intolerância e a pobreza, que lançaram mãos à tarefa de laborar os campos com técnicas mais avançadas, mostrando assim aos nativos como podia ser obtida uma maior produtividade do trabalho humano.

Chegados os alvores da modernidade e derrotado o intento imperial napoleónico, entrámos verdadeiramente numa nova fase da colonização do mundo ultramarino, que só o domínio da navegação marítima permitiu realizar. Agora, quando a produção fabril e o maquinismo entravam em fase de grande expansão, já só as principais potências políticas tiveram condições para liderar o processo, nomeadamente a Inglaterra e a França, com a Alemanha e a Itália a segui-las com muito atraso no tempo mas não na premência dos resultados económicos esperados, e com os Estados Unidos da América do Norte entretidos a consolidar a ocupação daquele grande subcontinente e, depois, a saldar pelas armas as suas divergências internas. De facto, podemos agora falar de capitalismo como um regime económico de livres trocas mas em que a concentração de capitais nas mãos de uns tantos proprietários e empresários permitiu lucros e reinvestimentos de grande amplitude, sustentando avanços técnicos que deram a volta ao globo com os caminhos-de-ferro, a navegação a vapor e o telégrafo eléctrico, desenvolvendo o comércio mundial, os negócios bancários e seguradores, e um novo crescimento urbano. Mas, ao lado destes intuitos lucrativos, a Europa (e o exemplo norte-americano) exportou também ideias de liberdade e independência que deram origem ao grande país autónomo que foi desde logo o Brasil e a todas as repúblicas latino-americanas; e, talvez ainda mais importante, que geraram o movimento para a abolição universal da escravatura e da servidão.

Secundariamente, em África e no Médio-Oriente esta nova colonização europeia também levou a esses povos alguns benefícios, pela obra das missões e depois pela própria administração estatal – melhorias sanitárias, escolarização e aprendizagem de certas regras do Estado moderno –, mas tudo isso não justificou a exploração económica, o menosprezo cultural e a violência empregue para reduzir todos os focos de resistência armada.

A servidão havia já praticamente desaparecido há séculos de toda a Europa mas subsistia com grande peso na Rússia imperial do Czares, devido à importância política da aristocracia rural e ao papel “anestesiador” da Igreja ortodoxa. É certo que ao longo do século XIX outros Estados europeus se auto-designavam de “impérios”, casos da Inglaterra, da Áustria-Hungria e da Alemanha mas, a despeito do luxo e da arrogância das suas Casas Reinantes (e da violência das suas polícias), não deixavam de vigorar nesses países condições para uma razoável liberdade de imprensa e de associação. Os princípios proclamados pela Constituição Americana e pela Declaração Direitos do Homem e do Cidadão, aliás implicitamente confirmados pela Conferência de Viena de 1815, passaram a vigorar nesses países e em vários outros das suas vizinhanças e influência, como Portugal. Se a Propriedade interessou especialmente a classe proprietária mercantil, artesanal e agricultora e legitimou os capitães-de-indústria a avançarem económica e politicamente contra as aristocracias e o clero católico, muitos mais puderam beneficiar dos princípios da Liberdade e da Igualdade, fosse para constituir uma empresa (sociedade comercial por quotas entre poucos, ou de capitais anónimos) ou qualquer outro tipo de associação de interesses (em que o poder soberano reside nos associados e os gestores são apenas seus mandatários), incluindo aqui as cooperativas igualitárias de produtores ou de consumidores, ideia desde logo sugerida e posta em prática por alguns beneméritos ou entusiastas “niveladores”. Também estes mesmos princípios serviram para proteger a liberdade de pensamento e crença, incluindo as suas expressões mais espiritualizadas, e para legitimar a igualdade dos cidadãos perante a lei, a justiça e os empregos estatais, tal como a independência das nações no plano das relações internacionais, confirmando a tendência que se vinha afirmando desde 1648 com os tratados que puseram fim à Guerra dos Trinta Anos. A Fraternidade, essa ficava como uma afirmação simbólica para ser concretizada num tempo longínquo.

Porém, quanto a concretizações imediatas, o mesmo não aconteceu no tocante à distribuição da riqueza e aos modos de vida socio-comunitários (em especial quanto a casamentos, convivência e vizinhança). A oferta de empregos industriais em novos centros urbanos e o excesso de braços e insuficientes rendimentos no trabalho agrícola gerou em algumas décadas fortes fluxos migratórios e uma nova classe social desenraizada e descontente: o proletariado, que em breve encontrou arautos que não só exprimiram as suas aspirações mas também lhes apontaram orientações para uma acção política autónoma.

A teoria do “valor trabalho” foi por eles posta no centro de quase todos os grandes debates dos séculos XIX e XX, mas de uma forma contraditória. Por um lado, reconheciam e louvavam as livres trocas mercantis como base para a formação dos preços resultante da oferta e da procura, sem monopólios ou restrições territoriais/estatais. Mas, por outro lado, consideravam o ajuste do salário como um roubo e uma apropriação que o empregador fazia do labor criativo do assalariado. O lucro, como resultado da empresa – isto é, de uma micro-associação capital-trabalho bem-sucedida –, encaravam-no como uma extorsão. E a ideia de um “salário justo” – e, concomitantemente, de uma adequada remuneração do risco e das responsabilidades contraídas pelo empresário – nunca foi seriamente procurada e, ainda menos, encontrada com viabilidade prática. Todos preferiram a “luta de classes”.  E, deste modo, a nova ordem liberal-constitucional emergente no Ocidente – podemos agora usar o termo com propriedade – ficou quase indissoluvelmente ligada à ideia de um poder económico capitalista, sobretudo porque, entretanto, a grande indústria se associou a um poder financeiro autónomo, capaz de influenciar directamente governos e políticas-de-Estado, como foi o caso da moderna colonização por parte dos poderes imperiais preexistentes, em competição entre si por matérias-primas abundantes e de baixo preço, mercados apetecíveis e com investimentos vultosos mas de mais-valias garantidas a longo prazo. Foi tudo isto que levou a que os melhores espíritos das novas classes dominantes a Ocidente chamassem “quarto estado” aos trabalhadores assalariados; e estes designassem a classe dos novos-ricos como os autores e beneficiários das “revoluções burguesas”.

Nenhum destes processos – modernização social, direitos de cidadania, industrialização, urbanização, laicismo, escolarização, liberdades civis e criativas – se desenvolveu de maneira linear ou harmoniosa, mas antes através de avanços e recuos, conflitos intra ou internacionais, bloqueios, pendências jurídicas ou “pronunciamentos” militares. As monarquias tornaram-se constitucionais ou deram lugar a repúblicas, os mapas políticos foram sucessivamente redesenhados mercê de guerras e tratados; algumas pulsões nacionalistas fragmentaram os Estados existentes, noutros casos levaram a integrações nacionais (de língua ou cultura) mais abrangentes; alguns impérios europeus caíram, outros ressurgiram ainda, até que no Leste se impôs um de novo tipo, liderado pela coligação de uma intelligentsia vanguardista com uma elite saída do operariado. Entretanto, reacções de “volta ao passado” manifestaram-se sempre neste mesmo espaço do Ocidente e diversos regimes assumiram contornos de autoritarismo indisfarçável, mas nenhum com os traços doutrinários, políticos e a violência daqueles que no século XX, inicialmente com apoio popular, se impuseram durante vários anos na Itália e na Alemanha, com seguidores na Península Ibérica e em outras geografias. As duas guerras mundiais foram os episódios mais sangrentos a que a modernidade assistiu, seguidos das dolorosas guerras “por procuração” que se sobrepuseram e marcaram os processos de descolonização de meados de Novecentos.

Em confronto com o “bloco de Leste” e o “3º Mundo, o Ocidente do último pós-guerra aproveitou bem a reconstrução de infraestruturas e os traumatismos mais recentes para se lançar num processo de desenvolvimento económico muito activo e intenso. Como facilmente se compreende, os chamados “trinta gloriosos” anos de crescimento contínuo beneficiaram e fortaleceram sobretudo o “império yankee”, aproveitando ao máximo a sua “pax” (resolvendo crises como as da Coreia, do Suez, de Cuba ou o início do atoleiro do Vietnam) e sendo capaz de superar as dificuldades internas do assassinato do seu presidente e do levantamento popular em favor dos direitos cívicos e da igualdade racial.

Tal como precedentemente a Inglaterra, a potência norte-americana usou e abusou da sua posição dominante durante o último meio-século. Os crimes de Estado são sempre inevitáveis (como os privados), e tanto mais perigosos quanto mais poderoso ele for, mas é crucial que tais desmandos sejam sempre criticados e sempre internamente denunciados. É o que faz a diferença com os Estados autoritários ou ditatoriais. O mesmo se pode pensar do nosso pequeno Portugal com os sucessivos passos do Constitucionalismo e da República, avançando sempre no bom sentido, apesar dos seus conhecidos erros e disparates.

Entretanto, em paralelo com o comércio, o idioma inglês tornou-se verdadeiramente na língua veículo internacional, remetendo para as curiosidades históricas o Esperanto ou outras tentativas de uma língua comum para a Humanidade que não traduzisse o predomínio de uma cultura sobre as demais.

A geração dos “baby boomers” beneficiou em pleno de uma escolarização muito alargada, de políticas de habitação social e de uma subida dos rendimentos dos seus activos (pais e mães) que também ajudou a sustentar  um mercado interno baseado na aquisição de bens de consumo duráveis (electrodomésticos e automóveis, sobretudo) e na rápida “usura moral” de muitos outros, descartáveis (vestuário de moda, discografia, além do tabaco e de novas bebidas refrigerantes ou alcoólicas) – ver a reflexão de Roland Barthes sobre o fenómeno da moda –, ou de serviços até então inimagináveis para o “grande público” (cinema, férias, turismo, etc.). O crédito chegava então em força a estas classes populares urbanas para “alavancar” o seu apetite consumista, com o qual procuravam saciar os recalcamentos psicológicos de gerações. Com apoio num modelo de produção “fordista” (produção industrial em grande escala com salários estáveis), tínhamos entrado numa nova fase da economia capitalista e na “sociedade de consumo” (vide autores como Baudrillard, e agora Bauman).

Num plano das atitudes socioculturais, “os jovens” começaram a criar uma sua nova identidade comunitária, rebelando-se contra a tutela paterna e as “tradições”, adoptando posturas de nonsense e provocação face às normas rotinadas da sociedade “burguesa”. Um actor de cinema como James Dean corporizou durante uma geração este modelo, tal como aí se originou a música rock (da idade-da-pedra) ou as calças-de-trabalho blue jeans, agora maciçamente usadas por quem olhava com displicência para o trabalho manual. No “velho mundo” europeu o fenómeno reproduziu-se, naturalmente com nuances e especificidades mais elaboradas: a “canção francesa” gerou modalidades de protesto e revolta de boa qualidade, tal como o cinema (francês ou italiano, de Godard ou Pasolini, com infiltrações comunistas) e a literatura romanesca ou ensaística. Mas, talvez sobretudo, embora de forma mais “subterrânea”, a aprendizagem de uns rudimentos de ciências sociais e humanas por parte de contingentes de jovens saídos dos “liceus da burguesia” começou a produzir o seu efeito, no sentido de alguma politização dos seus comportamentos individuais e colectivos. Foi o tempo dos maître-à-penser, dos Sartre, Beauvoir, Fanon, Guérin, Marcuse, Castoriadis, Morin, Foucault e outros em domínios mais especializados.     

Isto passou-se nos países directamente afectados pela última guerra mundial, mas também em diversas periferias, como foi o caso de Portugal, embora com notórias diferenças de ritmo e intensidade. Aqui (como aliás em Espanha), o primeiro sinal desta revolta juvenil foi dado pelos “filhos do regime” que lideraram o movimento estudantil dos anos 1961/63 e pelos “católicos progressistas” que já não pararam o seu activismo até ao soçobrar do Estado Novo de Salazar. Era um pouco a repetição do movimento desencadeado na segunda metade de Oitocentos na Rússia czarista no qual os filhos rebeldes da pequena aristocracia e dos novos burgueses “foram ao povo” – para os instruir ou incitar à revolta, com vista a um “socialismo agrário” –, um “populismo” (Narodni) que caracterizou uma época mas que nada tinha de comum com a mobilização reaccionária que veio a ser activada por tribunos como Mussolini ou Hitler no período de entre-guerras ou com o populismo actual que segue as consignas de Trump, Le Pen ou Ventura.      

Obviamente, os momentos altos desta contestação ao statu quo global, criticando o “imperialismo americano” mas também a intervenção soviética na Checoslováquia e as “insídias burguesas” dos regimes democráticos, cristalizaram-se na revolta/“revolução cultural” do Maio de 68 em França e nos seus sucedâneos: uma afirmação comunitária prolongada das classes etárias mais novas; um feminismo “triunfante”; um ecologismo que rapidamente percebeu o itinerário predador do desenvolvimento económico que estava sendo seguido; e um pacifismo que logicamente respondia ao conceito MAD (mutual destruction assured) dos “adultos responsáveis”.

Destes diferentes temas – todos eles, porém, de alcance universal –, há um que desde logo abriu uma clivagem profunda com diversas culturas antigas presentes na Terra: o da emancipação social da mulher – sendo que talvez o islamismo seja aquela que maior resistência lhe tem oposto.

Um pouco por todo o mundo, essa “classe jovem” assumiu-se como o motor de dinâmicas de transformação social ou mesmo como a nova vanguarda revolucionária que empunhava o estandarte antes desfraldado pela “classe operária”. Inevitavelmente, porém, as características sociológicas desta comunidade identitária de novo tipo não tardaram a revelar-se, de forma internamente contraditória. O terreno havia talvez sido preparado pela ambiguidade do convite à responsabilidade individual ou talvez ao “derrotismo” que estava implícito em canções como Le Déserteur de Boris Vian, de 1954, e mais tarde se veio a confirmar com o fascínio exercido nesta juventude pela “revolução cultural” Maoista. No pós-Maio de 68, o contraste mais gritante entre estes movimentos contestatários e o universo castrense das tropas ou das polícias – como literariamente já se exprimia na obra do croata Miroslav Krleza Enterrement à Thérèsienbourg, de 1933 – aparecia aqui minado (para não dizer negado ou, talvez antes, subsumido) pela inconsciente atracção desses jovens pelo uso de artefactos de vestuário como as botas ou os treillis de combatentes US: lançando pavés contra os CRS nas ruas de Paris, imaginavam-se talvez guerrilheiros Viets a expulsar os soldados americanos da península indochinesa. Tal como sucedeu com a atracção universal pelas calças Levi-Strauss ou com a execução do Star Spangled Banner pelo Jimmy Hendrix à guitarra eléctrica no Woodstock de 1969, com uma multidão de jovens-“contra” em delírio. Sem espanto, uma parte desta insurreição-da-vida estiolou-se em vias sem saída e ilusórias emancipações, como foi o caso da droga, tema em que é bom lembrar a enorme divulgação de livros como On the Road, de Jack Kerouac, nos anos 60, ou o sucesso extraordinário de um filme como Easy Rider na década seguinte. A “liberdade sexual”, o individualismo e o narcisismo progrediram naturalmente neste meio muito rapidamente.

Entretanto, no plano dos grandes movimentos migratórios, os fluxos intra-europeus determinados pela procura e oferta de mão-de-obra (sobretudo na construção civil e na produção industrial “em cadeia”) que até então haviam sido protagonizados por polacos e diversos refugiados políticos do Leste, e em seguida por italianos, espanhóis e portugueses, passaram a dar lugar a importantes correntes provenientes dos territórios coloniais (africanos, principalmente), à medida que esses acediam à independência política e as antigas metrópoles inauguravam com eles novas relações económicas, muitas vezes ditas “neo-coloniais”: dependência financeira, tecnológica e cultural; mercado para produtos manufacturados e para novos investimentos; exportação de mão-de-obra, a pedido dos europeus; intervenções militares quando necessário para manter no poder político local alguma elite corrupta e compreensiva para os interesses dos “brancos”.

Porém, nem tudo correu nestes processos segundo os melhores planos dos ex-colonizadores. Algumas das novas classes dirigentes nacionais preferiram orientar-se para uma política externa colaborante com o Bloco de Leste no âmbito da “guerra fria”, ainda que sob a etiqueta do movimento dos “não-alinhados”. No caso dos mais renitentes em “descolonizar” e onde se desenvolveram lutas de guerrilha duras e desgastantes para os europeus (a França e Portugal), foi quase total o apoio político e militar que o “3º mundo” já independente forneceu aos combatentes “nacionalistas”. E o aproveitamento-de-oportunidades proporcionado pela imigração para os países mais ricos acabou por reverter, em certa medida, mais em benefício dos “expatriados” do que dos países de acolhimento: quantitativos migratórios descontrolados face às autoridades (com fenómenos de tráfico à mistura); exploração dos benefícios de apoio social de diverso tipo que existiam nesses países; constituição de núcleos residenciais onde impõem a sua cultura; e, last but not least, suscitando reacções de rejeição por parte dos nacionais de souche, alterando o quadro político existente pelo reforço dos partidos de direita radical.

Estes processos migratórios, juntamente com o retorno dos ocidentais às ex-colónias (mas agora sob a forma de empresários apostados na sua modernização) e, sobretudo, a mundialização das comunicações electrónicas de massas (televisões) e interindividuais (“redes” captáveis por computadores caseiros ou meros smartphones) transformaram profundamente e em escassas décadas os modelos socioculturais dominantes e os padrões de consumo de metade-do-mundo, essencialmente aquele que habita em territórios urbanizados e que nos habituámos a definir como “classe média”: apetites insaciáveis para consumir mais (e mais sofisticados) bens materiais; adesão a todo o tipo de novos serviços disponíveis no mercado; cumprimento rigoroso das novidades ditadas pela moda (rapidamente caduca e substituída pela seguinte), seja ela vestimentária, alimentar, de modelos corporais, de mobiliário caseiro, viaturas, tipos de espectáculos, extravagâncias de veraneio, gostos, preferências ou rejeições… Tudo isto moldado num narcisismo doentio de que a crescente atenção prestada aos animais-de-companhia apenas revela a solidão psicológica e social a que nos tem conduzido este tipo de progresso. Para ele, as classes dirigentes (de elites económicas, políticas e pensantes das chamadas ciências sociais e humanas) contribuem largamente com as suas buzzwords da “inovação”, da “digitalização da economia”, do “verde”, da “solidariedade” e da “luta contra as discriminações”, campanhas para as quais arregimentam todos os juristas necessários e as indispensáveis consignações em letra-de-lei. Têm como eco de resposta favorável (mas também sempre reclamante e algo crítica, como convém) o pequeno mundo dos novos criadores artísticos e das suas inesgotáveis estéticas de vanguarda. Neste aspecto, a obra pictórica de Paula Rego retrata exemplarmente o mundo actual e expressa uma das suas linhas dominantes.

Tal produção artística fornece também encorajamento ao que poderemos apelidar de “movimentos tecno-comunitários”, uma espécie sucedânea dos já superados “novos movimentos sociais” que agora se fixam em temas como a vitimização dos ex-colonizados e da “negritude”, dos “desviantes” da sexualidade natural ou da antiga submissão social das mulheres e das crianças; ou que, pelo contrário, identificam nas mobilizações juvenis “pelo planeta” ou por uma mais rápida “descarbonização” o alfa-e-ómega de uma nova era de emancipação da humanidade. Isto, apoiado na judiciosa escolha de factos e argumentos para apoucar (ou mesmo criminalizar) o passado histórico do Ocidente que vem ocorrendo em círculos restritos, inclusive na universidade, (nos tais sectores das ciências sociais e humanas) e na sua repetição mecânica e ignorante por parte de jovens e “militantes” disponíveis para qualquer acção-de-rua que obrigue os media a falar da sua “causa”. São estes os “insubmissos” dos tempos actuais? Ou apenas uns “populistas de esquerda” usados, como sempre, por lideranças bem informadas mas com desígnios nem sempre claros, talvez mesmo para elas próprias?

Mas não sejamos injustos ou saudosos de um passado mitificado. As classes etárias mais novas deste mundo urbano e pós-industrial sentem-se bem e exploram com desenvoltura os meios comunicativos e informativos de que dispõem, tão bem ou melhor do que o faziam os das gerações dos jornais e dos livros. As suas elites artísticas e intelectuais respondem à mediania que as rodeia, mas dentro delas existem excelentes exemplos de boa música e de boa prosa, embora mais daquela do que desta, porque se vai escrevendo (e pensando reflectidamente) cada vez menos. E daí também o elegerem temas sociais que as preocupam especialmente – o sexo, a cor da pele, o look, os animais ou o meio natural estragado que as envolve – em vez das transformações políticas que interessavam os seus antecessores.

Contudo, é também verdade que o “modelo consumista” que se propõe aos jovens escolarizados (e sempre mais informados do que os seus progenitores), e ao qual eles genericamente aderem, não é correspondido na esfera do trabalho e das condições de vida (salários e habitação, principalmente) pelo quadro de realidade que encontram, como jovens adultos, na economia e nos serviços públicos da maior parte dos países. Daí derivam diversas e acentuadas frustrações.

Enquanto isto, as esquerdas partidárias insistem nas suas políticas estatistas mais ou menos actualizadas e as direitas dando sempre primazia à propriedade privada e ao ganho monetário individual. Mas é por vezes patético ver como as primeiras designam por “solidariedade” as despesas que consentem ao Estado social, enquanto designam por “caridadezinha” as medidas parecidas avançadas por governos da ala conservadora.

A economia que sustenta estes comportamentos e atitudes sociais activados pela “globalização” tem na base o processo produtivo (como sempre no passado) mas como sector dinamizador o consumo, e como elemento regularizador o controlo financeiro e o crédito. Os actores principais deste sistema económico mundializado são três: as empresas – havendo a distinguir aqui enormes diferenças de escala e de poder –; os governos políticos nacionais (onde sobrelevam as “grandes potências”); e as populações civis, todas elas beneficiárias dos produtos finais de “grande consumo” e donde saem os agentes activos da produção económica e da ciência (incluindo os simplesmente trabalhadores), e aqueles que pelo voto, a aclamação ou a submissão legitimam as elites governantes dos diversos Estados.

Com os aperfeiçoamentos técnicos da automatização e robotização da produção fabril e extractiva, a intervenção dos operários foi-se distanciando cada vez mais da manipulação dos materiais (do metal, da madeira, da pedra, dos produtos alimentares, etc.) para a maquinaria: primeiro para o comando das máquinas-ferramentas, mais tarde para o controlo do comando numérico dessas mesmas máquinas. A parte mais rica em conhecimentos técnicos passou então para os programadores (com parâmetros e linguagens próprias e diferentes), devendo os operadores assegurar apenas a vigilância do seu funcionamento, a sua alimentação e pouco mais: em suma, sofreram um processo de desqualificação profissional e, naturalmente, mais mal pagos. O lay out do encadeamento entre máquinas e operações foi também sendo automatizado, tornando mais fluido todo o processo, com menos tempos mortos e “stocagens” intermédias. Tudo isso exigiu mais trabalho de engenheiros e gestores, e a disponibilidade de operadores flexíveis e adaptáveis.

O crescimento das ferramentas ciber “directamente produtivas” e a sua apropriação social está também a propiciar a criação uma classe de técnicos informáticos possuidores de larga autonomia e compreensão da economia actual, que lhes abre perspectivas de trabalho independente ou associado, fora das “garras” das grandes empresas predadoras. Alguns deles tentam formas cooperativas entre si, ou com gente da sua geração e sensibilidade que “retorna ao campo” e ensaia novos modos de actividade económica rural. Falta-lhes em capital o que lhes sobra em iniciativa e são empreendimentos que têm apenas uma reduzidíssima expressão, mas constituem um sinal de reacção positiva contra previsíveis desastres da economia mainstream.

Na fase do consumo, do “grande consumo” mundializado, para além da omnipresente publicidade temos agora uma ilusória maior diversidade de escolhas de produtos, variedades e espécies que conseguem ser satisfeitas por “encomendas directas” à produção mas que, no fundo, não passam de artifícios psicológicos que escondem um efectivo afunilamento dos padrões de consumo, bem geridos por cadeias-de-comando que, nas maiores empresas, atravessam fronteiras e encontram os recursos e componentes mais económicos para lograr um preço final imbatível face à concorrência – aliás muitas vezes reduzida a meia-dúzia de competidores e de marcas (algumas das quais na posse jurídica da mesma entidade).

Sem o suporte material da mercadoria – seja ela matéria-prima, produtos semi-acabados ou finais – algo de parecido acontece com os serviços prestados, quer a pessoas, quer a empresas, que fazem uso muito intenso dos dispositivos jurídicos vigentes nos vários países e das regras do direito comercial. Aqui, empregam-se sobretudo pessoas com competências “comerciais” e “comunicativas”, “empreendedores” capazes de inventar novos serviços vendáveis, da mais inusitada índole.    

No ciclo intermédio da circulação – os transportes, o comércio de grosso, etc. – actuam muito diversos agentes, tecnologias e processos, hoje sempre especialmente activados pela Internet e os meios informáticos: vão desde os sofisticados meios do transporte aéreo, do transporte marítimo e ferroviário pesados, até à autonomia capilar dos veículos rodoviários e às ligeiríssimas motocicletas dos rapazes das “plataformas” e da distribuição a domicílio.

Finalmente, no espaço mundializado e essencialmente fluido das transferências de signos monetários (seja de valores contabilísticos tradicionais ou “cripto”) afirmam-se hoje as realidades do “grande capital”, dos super-negócios e dos indetectáveis tráficos, que os Estados comuns tentam agarrar para lhes cobrar algum tipo de impostos, mas que só algumas poucas grandes potências têm meios suficientes para constranger, ainda que ligeiramente. Pelo que se vê da exibição que certa imprensa faz das “grandes fortunas”, trata-se sobretudo de empresários que, com enorme talento, iniciativa e apetência ao risco, sempre na área do ciber-espaço, em poucos anos saltaram “da garagem” para o “mundo virtual”, que agora partilham entre poucos. São negócios que já ultrapassam em lucros os dos grandes conglomerados empresariais multinacionais e desafiam governos e regras da regulação internacional instituída desde há décadas.

despesa pública é um custo inevitável, já que o Estado não produz riqueza embora assegure funções dificilmente substituíveis. Mas se a justiça, os serviços de socorro e emergência, a segurança e defesa, e alguma despesa social não são descartáveis, já os custos do armamentismo derivam essencialmente do contexto internacional e geopolítico. Por isso, a Paz, além do seu valor humano intrínseco, deve ser um bem comum procurado e preservado o mais possível. Não por acaso, países como a Alemanha ou o Japão lograram espectaculares avanços económicos depois da última grande guerra, poupados que foram a grandes despesas militares, além de terem reconstruído os seus devastados territórios (e beneficiado, é certo, da ajuda e protecção dos seus vencedores de 1945).  

Há aqui um outro ponto que merece reflexão, que é o dos sistemas de Segurança Social inventados na Europa desde há mais de meio-século. Por muito que estimemos o valor intrínseco da liberdade de escolha individual, quem acredita que, sem os nossos coercivos “sistemas de repartição” das pensões (onde nos retiram em cada mês uma fracção dos rendimentos auferidos do nosso trabalho… mas no fundo sempre pagos pelo nosso empregador), a grande massa da população tivesse a previdência suficiente para financiar por si própria a sua velhice ou invalidez? É, de facto, mais um argumento em favor do “Estado social” – que inevitavelmente acarreta nova burocracia improdutiva e hipóteses de aldrabice e corrupção –, e também das políticas “de esquerda” (alimentando o seu interesse em ocupar o poder), mas também é verdade que os sistemas de seguros voluntários privados ficam nas mãos de gestores que, por incompetência ou ganância, são bem capazes de levar os seus negócios à falência deixando os pensionistas descalços… Ainda estamos longe de ter encontrado uma melhor solução para sustentar certas populações de “improdutivos”, desde que as famílias estáveis e alargadas deram lugar ao “encontro desejado” de jovens adultos.

A questão da distribuição global dos rendimentos é, há muito, um tema controverso no espaço da opinião pública e talvez também no seio da própria ciência económica. Durante longo tempo, e ainda hoje, isto focou-se na oposição binária entre rendimentos do trabalho e rendimentos do capital, mas é possível que as diversas fórmulas redistributivas do Estado social do pós-guerra e as mais recentes modalidades de poupança/diferimentos salariais desenvolvidas pelos sectores financeiros tenham alterado alguma da sua pertinência. Porém, após certa hesitação (derivada das permanentes manipulações dos números divulgados), parece hoje estabelecido que a distribuição mundial dos rendimentos acentuou nos últimos 30 anos a concentração capitalista nos “super-ricos” (incluindo os “oligarcas” saídos do ex-Estado “soviético” e os “donos do ciber-espaço” já referidos), enquanto que metade da população mundial estiola com rendimentos insuficientes, incluindo muitos milhões abaixo do limiar de pobreza. Será possível reequilibrar esta distribuição tão desigual com uma travagem no crescimento, como alguns defendem, perturbados pelo fenómeno do consumismo das “classes médias” e pelos inacreditáveis desperdícios que constantemente “produzimos”? Serão a chamada “economia circular” e o “comércio justo” medidas estruturais ou apenas paliativos de um regime económico predador e insaciável? E a “taxação básica dos lucros” das super-empresas algo de praticável? Será o rendimento mínimo universal – necessariamente gerido pelos Estados – uma iniciativa positiva para uma desejável equidade social e mundial ou apenas mais uma medida “fora da economia” que gerará novas arbitrariedades e “custos de contexto”? 

É este o mundo que o Ocidente criou e que, de certa maneira, o ultrapassou. Um Ocidente que, por boas e menos louváveis razões dominou a Terra antiga ou primitiva, que sempre estimulou o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, ao mesmo tempo que também manteve a liberdade e as instituições como pilares fundadores da sua existência – incluindo até as rebeldias positivas e o pensamento utópico contra-institucional. Tudo isso fez avançar a aventura humana.

Mas o Ocidente não convenceu nem eliminou outros grandes poderes soberanos existentes à face da Terra nem os núcleos de pensamento que, por razões diversas, sempre procuraram negá-lo e combatê-lo de maneira mais ou menos aberta ou camuflada, ao mesmo tempo que aproveitavam e beneficiavam de tudo o que lhes interessava e fosse útil. Ontem como hoje.

O discurso de Putin na abertura do Fórum Económico Internacional de São Petersburgo (concorrente do de Davos), a 17 de Junho de 2022, deveria e vai possivelmente deixar uma marca impressiva nas relações económicas mundiais. Dirigindo-se a uma plateia de grandes empresários russos mas também a dirigentes políticos e chefes de empresas da Índia e Sudoeste Asiático, do Médio-Oriente e sobretudo de África e da América Latina, o líder do Kremlin traçou um quadro completo do projecto estratégico que tem em mente: criar uma economia concorrente e alternativa à globalização montada pelo Ocidente, com um sistema monetário e de circulação financeira próprios, dentro do regime de livre comércio existente, mas tendo como principais protagonistas os governos fortes de países pobres e com grande reservas demográficas (que são aqueles que mais necessitam de crescer). Ou seja: advoga um capitalismo concorrencial e com propriedade privada mas protagonizado sobretudo por Estados autoritários – tal como a China tem vindo a praticar. Embora assestando todas as baterias contra os Estados Unidos e a União Europeia – com quem tem agora um braço-de-ferro perigoso por causa da guerra que lançou na Ucrânia –, nem por isso referiu algum tipo de intenção de confronto bélico: prefere jogar no campo da concorrência económica (como possivelmente Xi-Jin Ping o aconselhou), tentando para isso levar Pequim a avançar no plano das trocas e de uma regulação monetária alternativa, penalizado que está pelo cerceamento devido às regras de Basileia.

A China, por seu lado, irá provavelmente manter a sua posição de prudência: dará alguma resposta favorável a Putin, mas longe do que este pretenderia, já que é o Ocidente o grande comprador da produção chinesa e é também no marcado do Dólar e do Euro que ela tem a maior parte dos seus investimentos comerciais, produtivos, financeiros e tecnológicos, que não quererá decerto pôr em risco. Jogará em campo aberto na economia capitalista globalizada, assumindo talvez um papel de intermediário para com o gigante territorial armado que é a Rússia, com quem por enquanto não deseja medir forças. 

Não se trata, pois, de um desafio à ordem liberal-capitalista dominante, que ambas as potências agora partilham, mas antes de uma estratégia política global para enfrentar o Ocidente, no que toca aos seus regimes constitucionais assentes em certas liberdades cívicas e nas escolhas dos seus cidadãos, aos quais contrapõem um Estado autoritário comandado por uma elite de poder.

JF / 24.Junho.2022 (dia do profeta S. João Baptista na tradição cristã)

[NB – Pessoalmente, não temos hesitação em nos qualificarmos como herdeiros históricos e culturais do chamado Ocidente, isto é: do pensamento europeu derivado da tradição judaico-cristã, das luzes oitocentistas e do essencial dos regimes liberais fundados pelas revoluções americana e francesa, mais os fundamentos de um socialismo que procurou dar resposta às instantes aspirações das classes trabalhadoras de então. Ass. João Freire, embora não-reconhecida notarialmente] 

Um comentário em “Ensaio:

  1. Seria interessante relacionar o Krausismo português e particularmente a Filosofia do Direito (Direito Natural Racionalista) do insigne liberal, Político, Filósofo e Reitor da Universidade de Coimbra VICENTE FERRER Neto Paiva, da Universidade de Coimbra e da Lousã, com o Anarquismo do primado do Indivíduo, ou seja, o Anarquismo como uma continuidade do Liberalismo Filosófico, que o mesmo é dizer o Indivíduo —- (o único soberano, o próprio e não órgão de soberania, ou dito de outro modo, a morte do soberano potestade)—- como uma emancipação da Comunidade e a Sociedade como uma pluralidade de Indivíduos, livres e iguais, subjectiva e opcionalmente fraternos. A filosofia liberal precede a filosofia anarquista ou acracial. Acracia como uma sociedade Anarquista de direito (Direito natural racionalista moderno ou Constitucionalismo acrata). Bom fim de semana. S. Miguel, 24 de Junho de 2022. Jorge Domingos Dias de Andrade jorgedomingosdiasdeandrade@gmail.com

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